domingo, 13 de novembro de 2022
A voz do Mar
quinta-feira, 29 de setembro de 2022
Ó MEU S. JOÃO
Crónica publicada in Bird Magazine, junho 2022
Diz a minha mãe que o S. João foi o primeiro santo que me abençoou, porque logo que saí da clínica Dr. João Barbosa (antiga clínica na Rua do Raio, em Braga), desci, em carro de praça, a Avenida Marechal Gomes da Costa, até à capelinha de S. João da Ponte. Teria eu três ou quatro dias, pois nasci no dia 20 de junho. E, fosse promessa, ou decisão simples de quem gosta do santo ou da festa, tenho a lembrança de, ano após ano, aguardar com impaciência a descida da mesma avenida até à ponte sobre o rio Este, onde a figura de S. João, o Batista, fazia jus ao nome e exibia uma concha sobre a cabeça de Jesus. Para mim, graças àquelas esculturas de barro, aquele era o rio Jordão.
Lembro que fazia a descida da avenida a apreciar as barraquinhas de brinquedos que a ladeavam, até descobrir aqueles que a minha mãe me haveria de comprar. Geralmente, eram pequenas peças de barro, pratos, chávenas e malgas, que eu usava para dar de comer às bonecas, e que, dada a fragilidade, tinham de ser substituídas a cada ano. Também me lembro de ter tido alguns brinquedos de lata, como por exemplo, uma máquina de costura quase igual à das modistas e alguns tachos que quase pareciam igualar-se aos verdadeiros, não fosse o tamanho. Eram assim os brinquedos das meninas, coisas para nos ensinarem a sermos umas mulherzinhas e boas donas de casa.
Entretanto, a avenida que nos leva à velha ponte ganhou nome de Liberdade, e também a minha festa ganhou formas mais livres e passou a fazer-se tanto de dia como de noite. Na altura, não eram bandas nem cantores da moda que nos chamavam à festa, era antes a possibilidade de um ou dois dias de folia e uma noite de independência. O S. João surgia envolto em manhãs frescas e orvalhadas que faziam carregar o verde dos manjericos e traziam a promessa de algo por vir. Então, surgia a grande noite e, ora a subir, ora a descer, percorríamos a avenida da Liberdade, em grande filas, de mãos dadas, não fosse desfazer-se o grupo no meio da confusão de cabeças, permanentemente fustigadas pelos martelinhos de plástico colorido, ou pelo alho porro, bem mais suave, embora de cheiro duvidoso.
Havia, por essa altura, muitas histórias e superstições que prometiam resolver paixões ou deslindar futuros... Certa ocasião, eu e duas amigas demos corpo a uma dessas crendices. Tratava-se de abrir um ovo dentro de um copo, na noite de S. João, e deixá-lo ao ar livre até de manhã. Estávamos expectantes quanto ao desenho que ali se formaria, dado que este seria revelador de algum aspeto importante do nosso futuro. Na manhã seguinte, creio que depois de uma direta, lá fomos espreitar os ovos e, curiosamente, todos tinham desenhos diferentes, que cada uma interpretou como bem entendeu. Não recordo os outros, mas o meu tinha o traçado nítido — pelo menos assim me pareceu — de um barco, o que decidi ser o sinal de que faria grandes viagens e o meu destino cumprir-se-ia, talvez, longínquo.
Hoje, a festa faz-se talvez com mais gente, porque se estende por mais dias e os turistas descobriram Braga e os seus encantos. E talvez haja um programa maior, mais rico e mais preenchido. Não tenho a certeza de que seja melhor, cada tempo seu encanto, mas é com certeza diferente. As barraquinhas ao longo da avenida já não vendem brinquedos de barro, quem os compraria... agora há roupas, óculos e carteiras de marcas sonantes e origens duvidosas. É preciso acompanhar os tempos, mas gosto que a tradição se mantenha, apesar das inovações. Continuo a gostar de passear pela cidade e apreciar os gigantones, os bombos, as bandas de música e as concertinas, gosto de assistir ao Auto dos Pastores e à Dança do Rei David, gosto de comprar o manjerico para a minha cozinha e gosto de comer as sardinhas e o caldo verde. Mas gosto, sobretudo, de perceber a alegria que a minha mãe, apesar dos seus noventa e quatro anos, continua a manifestar com a aproximação dessa data, uma alegria que parece ir buscar aos tempos da sua juventude, talvez muito antes de ter descido comigo, pela primeira vez, a avenida que leva à capela de S. João.
quarta-feira, 28 de setembro de 2022
Palavras leva-as o vento
quinta-feira, 9 de setembro de 2021
Sons da Água e Paradinha
Há paisagens inteiras que guardo na memória, recantos precisos, carregados de cor ou de mistério, que revejo, mesmo que jamais os possa repetir. Há cheiros que vou buscar longe, muito longe, e me visitam a espaços. Há sons que trago na memória, como se fossem versos inteiros, ou músicas já despidas de letra e de sentido. Assim ficou comigo Paradinha, como se fosse uma voz próxima, que o tempo não pode desfazer, como fez ali com as paredes carcomidas de algumas casas até que fossem poeiras levadas pelo vento.
Paradinha é uma aldeia bastante próxima da vila de Arouca, mas faz parte do interior mais esquecido, as distâncias não se medem em quilómetros, como sabemos. Seria até romântica essa ideia de provincialismo, de paragem no tempo, como se a idade média tivesse feito morada naquelas paragens quase até ao final do século vinte. Paradinha não tinha uma estrada a servi-la, antes um estradão que, qual caminho de servidão, não levava a mais lado nenhum. Por certo, esse trilho pouco importaria a muita gente dali, muitos não se terão nunca aventurado por ele, outros traçariam atalhos no monte para aldeias vizinhas, para Arouca, ou para qualquer lugar onde pudessem trocar alguns haveres por aquilo que não produziam, como a roupa que vestiam, apenas duas mudas, na maior parte dos casos. Dizem que em aldeias pequenas como aquela não havia escola, nem igreja, mas todos os dias se rezava o terço e os mais velhos não descuravam o ensino das boas maneiras e das orações que alimentavam as suas almas, naquela humildade simples. Quanto à escola, a pequenada que queria “aprender”, tinha de ir “servir” para uma aldeia maior, onde a houvesse, e ali ficava a troco de comida e tempo para dedicar ao estudo das letras e das contas. Paradinha foi habitada até algures nos anos oitenta, quando ainda se vivia assim, quase alheio às alterações que grassavam no resto do país.
A aldeia foi, pois, abandonada, como outras que os caminheiros que hoje rasgam as serras da Freita, S. Macário e Arada, podem sobressaltar à sua passagem. Mas em Paradinha esse abandono teria um fim. As suas casas, agora restauradas após uma longa deserção, são de uma beleza e simplicidade tocantes, mostrando que aquela recuperação foi marcada pelo amor, pelo bom gosto e pelo respeito àquelas gentes que lá terão habitado. Ali, nada nos choca, mas tudo nos surpreende. Entrei na aldeia, pela primeira vez, em plena primavera, num dia em que o sol e a chuva disputavam permanências na paisagem. Tudo estava fresco e luminoso, apesar de algumas nuvens que resistiam num céu, quase todo azul. Os meus sentidos estavam absolutamente despertos. Na orla dos caminhos e nos montes envolventes cresciam flores brancas, amarelas, azuis, lilases, tudo por entre verdes nunca vistos, e no ar pairavam cheiros secos e doces, onde sobressaiam a estevinha e a rosa selvagem. E havia um som omnipresente, que era o som da água. E tinha tanta força essa sonoridade que adivinhávamos a sua presença muito antes de a surpreender no pequeno ribeiro que corria junto às casas, para a levar ao Paiva que corria ao fundo da aldeia. Quanta roupa não terão ali lavado as mulheres de Paradinha, quantas brincadeiras, quantos sobressaltos não terá causado aquele rio, quanto encantamento, quantas vezes cenário de doces e secretos amores.
Voltei a Paradinha no verão. A aldeia estava cheia de gente, turistas que tinham escolhido o local para férias, mas também aqueles que vinham participar na cerimónia de entrega do prémio Sons da Água. Eu fui recebê-lo.
quarta-feira, 18 de agosto de 2021
BOAS VIZINHANÇAS
Há uma árvore na janela do meu quarto! Há anos que vigio o seu crescer sereno, por detrás de uma casa que lhe empresta vizinhança. Começou por ser um ramo curioso a espreitar sobre o telhado que, por certo, lhe roubava horizonte, alheio às suas necessidades de árvore nova e ávida de mundo.
Embora só conhecesse dele a copa que, orgulhosamente, erguia bem acima do telhado da casa que o ocultava, reconhecia nele a majestade de uma árvore. Era um pinheiro! Não era árvore frondosa, e os seus ramos não se estendiam num abraço celeste, antes se erguiam em serena prece, tingindo com traços finos o céu, como se desenhasse um caminho até às nuvens ou às estrelas. Eu achava graça àquele tronco esguio que parecia confundir tamanho com maturidade e não sabia ainda que esses são apenas dois versos que nem sempre cabem no mesmo poema. Habituei-me, pois, a olhar aquele pinheiro, talvez com a complacência com que os velhos olham as crianças, e a deixar que o meu olhar pousasse nele, a cada abrir da minha janela.Tempos depois, percebi que aquele ramo solitário, um tufo verde e altaneiro, ganhara novos companheiros. Como ele, outros pinheiros ganhavam tamanho e tingiam de verde o azul acima das casas do outro lado da minha rua, numa promessa de outra robustez. Olhei, uma outra vez, a mais antiga árvore. Era a mais alta, pinheiro singelo, tímido e humilde, e de uma delicadeza tão tocante que experimentei por ele algo muito próximo daquilo que se sente perante a fragilidade exposta de um amigo, que se dobra quando o vento se abate sobre ele, mas que, apesar disso, não desiste de crescer.Um dia, chegou a minha casa uma gata que teimava em ver o que eu via... e se calhar via mais, até, porque quando ela olhava pela janela e deitava o olhar para longe, parecia que se perdia em devaneios e, quem sabe, sonhasse um dia trepar ao cimo do pinheiro, como gajeiro que sobe à gávea e perscruta o aproximar de tempestades. E, juntando-me a ela naquele olhar, gostava de fingir que o pinheiro nos dava notícias do mar, nos falava do vento que enrola a areia e trazia até nós o cheiro da maresia nas ondas do seu bailar.Mas, a minha gata escolheu ir embora e agora acontece-me muitas vezes ficar triste e pensar que, um dia, um som de morte atroará por este vale e derrotará o verde que tinge este meu céu. E então restarão os automóveis que já não ocuparão os olhos da minha gata. Restarão os telhados. Haverá, com certeza, as rolas que gostam de passear por sobre as telhas e restarão as andorinhas nos beirais, a cada primavera, para alimentar a minha esperança. E, pensando nessas aves de bom agoiro que há algum tempo vejo por estes lados, penso que a minha gata há de voltar e que o pinheiro viverá os anos que lhe couber viver, quem sabe continuará a crescer muito para além de mim (dizem que pode viver até 300 anos), tal como deve ser e a natureza quer.


