sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 


Por entre solicitações e obrigações do mês de Agosto, não sobrou muito tempo para os livros.  Três foi a conta possível.

LIÇÕES DE QUÍMICA, Bonnie Garmus

Numa altura em que assistimos  à contestação do Feminismo, e são, muitas vezes, as próprias mulheres a defender o ressurgimento de uma certa ideia de conservadorismo, esta história recorda-nos   que ainda nos anos sessenta do século vinte, os institutos de pesquisa, as universidades e os locais de poder, de um modo geral, estavam vedados às mulheres. A protagonista, Elisabetet Bott, por se recusar a encaixar  nos lugares para onde a querem relegar, tem a coragem de lutar pelo lugar que sabe merecer. Com alguém disse “Ela é o lembrete de quão longe chegamos mas também de quão longe ainda temos de ir”. Uma coisa curiosa é que, sendo ela uma química, acaba por nos mostrar o quanto essa ciência está presente no nosso dia a dia.

A ÚLTIMA LIÇÃO DE ÁLVARO SIZA VIEIRA, Patrícia Reis

Li, não há muito tempo, “A Desobediente”, da mesma autora, e gostei do modo como ela apresentou a biografia de Maria Teresa Horta, por isso senti uma certa curiosidade em conhecer, através dela, o arquiteto mais premiado em Portugal e um dos mais prestigiados a nível internacional. 

Na verdade, não se trata de uma biografia no sentido mais tradicional, Álvaro Siza Vieira vai-se desenhando perante nós, através  das suas próprias palavras, dos seus desenhos, da sua poesia, tudo habilmente selecionado por Patrícia, fruto de um conjunto de conversas entre ambos. Além de ficar a perceber melhor algumas das suas obras, fiquei a conhecer outras (aquelas que me convocaram à pesquisa) e, sobretudo, percebi que na arquitetura, pelo menos na de Siza Vieira, também existe diálogo e poesia.

“O VENTO CONHECE O MEU NOME, Isabel Allende

Mais um livro a entrelaçar o passado e o presente, os desencontros familiares marcados pela guerra e a busca pelo reencontro. Honestamente, não é dos meus preferidos  da autora.



quinta-feira, 23 de abril de 2026

O INFINITO NUM JUNCO, Irene Valejo


Há muito que sentia vontade de ler este livro, mas havia sempre outros a meterem-se no caminho das minhas leituras, e ele ia ficando em lista de espera. Li-o, finalmente, e foram 400 páginas de puro encantamento.

Uma magnífica e incomparável história do livro, que é também uma forma de ler a história da Humanidade. Encontrei em cada página verdadeiras pérolas, tanto que é difícil, para mim, destacar um capítulo, um episódio, uma passagem. Contudo, talvez pela época que vivemos, vou citar um breve trecho, que foi encontrado num monumento funerário grego, datado do século II:

 “A única coisa que vale a pena é a educação. Todos os outros bens são humanos e pequenos e não merecem ser procurados com grande empenho. Os títulos nobiliárquicos são um bem dos antepassados. A riqueza é uma dádiva da sorte, que a tira e a dá. A glória é instável. A beleza é efémera; a saúde inconstante. A força física cai tomada pela doença e pela velhice. A instrução é a única das nossas coisas que é imortal e divina. Porque só a inteligência rejuvenesce com os anos e o tempo, que arrebata tudo e dá sabedoria à velhice. Nem sequer a guerra que, como uma enxurrada, varre e arrasta tudo, te pode tirar o que sabes."


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O IMPÉRIO DAS SOMBRAS, de Fernando Pinheiro


A minha última leitura de 2025 foi o romance histórico "O Império das Sombras", de Fernando Pinheiro.
Foi uma leitura lenta, porque o texto é denso, complexo e denota um trabalho de investigação hercúleo, por parte do autor.
Aprendi imenso sobre uma época da nossa história muito pouco explorada, ou que eu, pelo menos, pouco sabia. A perda da independência de Portugal para Espanha, os meandros do domínio filipino, da guerra da restauração, da perseguição aos judeus e cristãos novos, das atrocidades cometidas pelo Tribunal do Santo Ofício, as alianças e pseudo-alianças com países historicamente nossos amigos, são temas profundamente explorados. 
Com tanto pormenor, tanta História para contar, o autor ainda enquadra, por entre as sombras desse século XVII, uma história de amor, bem como algumas curiosidades, tais como uma relacionada com o famoso "chá das cinco" introduzido em Inglaterra pela nossa Catarina de Bragança. Esse facto eu já conhecia, só não sabia que o nome "tea" deriva da sigla marcada a ferro nas caixas de exportação, abreviatura de "Transporte de Ervas Aromáticas".
O autor procura adotar uma linguagem consentânea com a época e recorre a expressões e termos caídos em desuso e outros de que ainda me lembro de, em menina, ter ouvido aos mais velhos.
Em suma, um livro primorosamente escrito, como é, aliás, apanágio deste escritor bracarense, que revela verdades deliberadamente esquecidas nos livros que todos estudamos na escola.

sexta-feira, 28 de março de 2025

FINALMENTE, TORMES

Deixei-me encantar por Eça de Queirós, quando, no ensino Secundário, lia, como todos líamos, as sebentas e os resumos sobre a sua obra, ao invés de nos debruçarmos sobre os livros, como era suposto. Curiosamente, aqueles textos que prometiam evitar o tormento de uma leitura que não queríamos fazer, acabou por despertar em mim uma curiosidade que me levou não só à leitura de "Os Maias", mas a aventurar-me por outros livros do mesmo autor, todos aqueles a que pude deitar mão e olhos.

De tal maneira me tornei numa admiradora de Eça que, mais tarde, quando já a trabalhar pude dispor de dinheiro ganho por mim, comprei a coleção completa das suas obras, em encadernação de capa dura, que figura, orgulhosamente, numa das minhas estantes. 

À medida que o descobria, mais me apetecia descobrir. Li-o e li sobre ele, vi séries televisivas, fotografei a casa onde viveu na Póvoa de Varzim, e até falei dela num dos meus contos, no livro “Brisas” . Interessavam-me as suas vivências, talvez por descobrir que, não raramente, os episódios da sua vida se misturavam com a sua ficção.

Mas só por estes dias, numa viagem por terras de Baião, ao deparar-me com a placa indicativa da localidade de “Tormes”, resolvi não adiar mais a visita que se impunha.

Gostei muito. A visita guiada à Casa de Tormes, hoje convertida na Fundação Eça de Queirós, conduziu-nos por referências tão vivenciais quanto ficcionais, já que as estadias de Eça por Tormes terão sido sempre de passagem, o que não o impediu de se confessar encantado pela paisagem que se impõe, ainda hoje, perante o nosso olhar cansado de cidade. 

Na casa repousam alguns dos seus bens,  aqueles que a família conseguiu reunir, alguns trazidos da sua casa de Paris, onde faleceu em 1900. Existem peças de mobiliário, pratas, vários objetos pessoais... e é neste contacto com os objetos que ele tocou, perante os livros que leu, a mesa onde escrevia, os aparos e o tinteiro que usou, que não pude deixar de me emocionar.

Saí dali com um propósito: reler “A cidade e as serras”. Confesso que não foi dos meus livros preferidos, mas, depois desta visita, lê-lo-ei com outros olhos e tenho a certeza de que vou adorar.



segunda-feira, 15 de julho de 2024

LANÇAMENTO DO LIVRO "BRISAS"

 



No dia 5 de julho de 2024, na sede da Fundação Luís Rainha, na Póvoa de Varzim, foi realizado o lançamento do livro "Brisas", vencedor do Prémio Dr. Luís Rainha/Correntes d'Escritas 2023.
Na mesa, para além da autora, estavam presentes o vice -presidente e vereador da cultura do Município, Dr. Luís Diamantino, o presidente da fundação Luís Rainha, Dr. Inácio Sousa Lima, e a escritora Ana Paula Mateus, que apresentou o livro.
Foi uma sessão muito participada, a sala encheu e, num ambiente animado e descontraído, ainda houve tempo para as fotografias da praxe e, claro, os autógrafos, antes do jogo de Portugal. Sim, estávamos em pleno Europeu e Portugal jogava nesse dia, contra a França. Infelizmente perdeu, por 5-3, nos penaltis, constituindo a única nota negativa do dia.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Voltar às raízes em tempo de presépios

Ontem voltei a Sobreposta, a terra dos meus avós paternos, onde vivi até aos oito anos. Nessa altura, os habitantes dos lugares de cada freguesia eram uma espécie de família alargada. Ainda são, a julgar pelos presépios que se podem observar em cada um deles, e que foram fruto de construção coletiva. Diferentes na forma, no tamanho, na técnica ou materiais, são, contudo, iguais no propósito que está por trás da construção de cada um: o fortalecimento da união, de que o presépio é, afinal, símbolo máximo.

E, surpresa das surpresas, num daqueles lugares ardia uma fogueira (desde manhã, disseram), que iluminava o presépio e, perto dele, como se fossem figuras daquela representação icónica, estavam os seus fazedores, em volta de uma mesa, para a qual fomos convidados. E assim, simplesmente, repartiram connosco o pão o vinho e o bolo-rei e pusemos em dia velhas lembranças, porque há sempre alguém que recordamos e há sempre alguém que lembra quem somos e de onde viemos.

Senhora Presidente da Freguesia de Sobreposta, a sua ideia colhe frutos, oxalá daqui a muitos anos esta seja mais uma tradição enraizada e se continue a repartir o pão, o vinho, os braços e os abraços.

Os lugares de Sobreposta estão mais bonitos. Parabéns!


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

OS FLAMINGOS TAMBÉM CHORAM, Miguel Jesus e A LEI DO AMOR, Laura Esquível

Acabei de ler “Os Flamingos Também Choram”, de Miguel Jesus, “um romance para ler e ouvir”. Com efeito, ao longo das cerca de trezentas páginas, podem ser ouvidas canções da autoria do mesmo, porque surgem na história com um código QR, permitindo-nos ouvi-las enquanto lemos. 

Esse facto fez-me recordar um livro que li em 2001 (sei isso porque anoto em todos os meus livros a data da aquisição e primeira leitura). Trata-se de “A Lei do Amor”, de Laura Esquível. Nesse caso, mais do que a história — que já não recordo muito bem mas sei que na altura me agradou bastante —, ficou comigo a música. O livro vinha acompanhado de um CD que ouvia enquanto lia e ouvi-o muitas vezes depois disso. Mais tarde, deixei de o fazer, as plataformas digitais impuseram-se também na forma de ouvirmos música. No caso presente, “Os Flamingos Também Choram”, basta orientar o telemóvel para o código QR enquanto lemos. Na verdade, não o fiz muito, as letras distraíam-me, contudo gostei de ouvir as doze canções nos intervalos da leitura. Quanto à narrativa, achei-a muito agradável, com um bom ritmo e muito interessante no modo de apresentar o desenrolar dos acontecimentos.