QUEM ME DERA SER ONDA, Manuel Rui, 2016
Mais uma vez uma releitura. Manuel Rui foi um dos autores que as Correntes d´Escrita da Póvoa de Varzim me deu a conhecer. Foi no ano em que ele foi homenageado, por isso fiquei curiosa, corri a comprar este “Quem me dera ser onda” e li-o de um sopro. Já o emprestei muitas vezes e o maravilhamento de quem lê é unanime, de tal forma que, sempre que o recebo de volta, me apetece relê-lo. Foi o que fiz desta vez.
A história passa-se em Luanda pouco depois da independência. É durante esse período de confusão política e social que um homem leva um porco para o apartamento. Enquanto o pai de família vê naquele porco a promessa de fartas refeições, os dois filhos desenvolvem por ele uma enorme afeição. As inúmeras peripécias em que as crianças juntamente com os colegas de escola e amigos do prédio se envolvem, na tentativa de o salvar, fazem este livro “ao mesmo tempo, delirantemente divertido e luminosamente redentor”, tal como se pode ler na contracapa.
BLUES PARA SONNY e outras histórias, JamesBaldwin, 2026
Uma edição de 2026 para um conjunto de contos escritos entre 1948 e 1965, por um autor negro nascido em Nova que partiu para Paris em 1948, para fugir do racismo. Trata-se de um livro onde sobressai precisamente aquilo que o autor experienciou: a brutalidade sistémica, o sufoco da marginalização e o fim da esperança. Cada narrativa é “um grito de lucidez sobre o que é ser-se negro na América e as feridas subtis, mas profundas, que a discriminação grava na pele de vítimas e executores”. Gostei muito da escrita de James Baldwin (vou procurar outros livros dele), adorei os oito contos, mas talvez o que dá nome ao livro “Blues para Sonny” tenha sido mesmo o meu preferido.
A TURISTA INVISÍVEL, Ana Saragoça
Gostei deste relato simples e despretensioso de uma mulher que aos cinquenta e tal anos resolve cumprir o sonho sempre adiado de fazer um interrail. A descrição da viagem, desde os preparativos às peripécias que marcam cada viagem rumo ao destino, que nem sempre é o previamente pensado; os locais mais improváveis que escolhe para dormir ou para comer; as distrações constantes; os nunca esquecidos aperitivos, fizeram-me sorrir muitas vezes. Não é de modo algum um relato convencional de viagem, Ana não perde muito tempo a descrever aquilo que, de resto, podemos encontrar em qualquer roteiro turístico, é sobretudo, como ela própria faz antever no subtítulo, “ir para dentro lá fora”. Contudo, revejo-me em certas impressões sobre algumas cidades, e no gosto pelos aperitivos italianos nas suas múltiplas esplanadas.
Não me ficou a apetecer fazer este tipo de férias, sobretudo pelos sítios que escolheu para pernoitar, mas tiro-lhe o chapéu.

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